Pesquisa aponta contaminação por micotoxinas em 87% das amostras de grãos e rações no Brasil, e especialista alerta para perdas silenciosas no rebanho
Substâncias produzidas por fungos comprometem ganho de peso, produção de leite e desempenho reprodutivo sem que o produtor perceba
Presente em quase 9 de cada 10 amostras de grãos e rações analisadas no Brasil, as micotoxinas são uma das ameaças mais subestimadas dentro da porteira. Os dados vêm de uma pesquisa conduzida pela dsm-firmenich, referência global em nutrição e saúde animal, que identificou contaminação por essas substâncias em 83% das amostras analisadas mundialmente no ano passado. No Brasil, o índice subiu para 87%, com a fumonisina, principal micotoxina de risco no país, presente principalmente no milho e seus derivados.
Segundo Augusto Heck, médico-veterinário e gerente de micotoxinas da dsm-firmenich, o problema vai além da presença isolada das substâncias. A chamada cocontaminação, quando uma mesma amostra reúne duas ou mais micotoxinas, potencializa os efeitos negativos sobre os animais e torna o controle ainda mais complexo. Para o especialista, o cenário mais preocupante não é o da intoxicação aguda, mas o do problema subclínico: a oferta continuada de micotoxinas em níveis moderados, que corrói o desempenho do rebanho de forma silenciosa e passa despercebida pelo produtor.
Na prática, essas perdas se traduzem em menor ganho de peso, queda na produção de leite e desempenho reprodutivo abaixo do potencial genético dos animais. O produtor investe em genética, mas não colhe o que o animal poderia entregar porque a dieta está comprometida por contaminação que ele nem vê.
Outro ponto levantado por Heck é que, ao contrário do que muitos imaginam, a maior parte da contaminação não vem do armazenamento, mas do campo. Estima-se que entre 90% e 95% das micotoxinas presentes nos grãos têm origem na lavoura, resultado da combinação de temperatura, umidade, grãos danificados e presença de fungos ainda antes da colheita. Apenas 5% a 10% são atribuídos ao armazenamento.
Mensurar o prejuízo econômico exato causado pelas micotoxinas ainda é um desafio. O impacto depende do tempo de exposição, do tipo e da interação entre as substâncias, além de fatores nutricionais e de manejo que variam de propriedade para propriedade. Diante disso, a estratégia recomendada não é eliminar totalmente o problema, mas controlá-lo ao longo de toda a cadeia produtiva, com monitoramento constante da qualidade dos insumos, uso de aditivos na dieta e ações que vão da pré-colheita até a formulação da ração. É nesse contexto que a nutrição de precisão ganha espaço como ferramenta central dentro da fazenda.
Renata Lippi | Canal Rural





