Como destravar o cio das novilhas primíparas: o erro que está custando bezerros à sua fazenda
Por que o suplemento proteico energético sozinho não resolve a fertilidade e qual mineral é a chave para o retorno
O retorno ao cio das novilhas primíparas, fêmeas de primeira cria, é um dos maiores desafios da fazenda de cria em 2026. Mesmo com boas pastagens e suplementação proteico-energética, muitos produtores se deparam com fêmeas que simplesmente não ciclam. O zootecnista e consultor Luis Kodel tem uma explicação precisa para esse problema: a nutrição precisa ser cirúrgica, não genérica.
A primípara é uma categoria biologicamente delicada. Ao contrário da vaca adulta, ela ainda está em crescimento enquanto amamenta o primeiro bezerro, o que coloca o organismo diante de uma demanda nutricional tripla: manter-se viva, continuar se desenvolvendo e produzir leite. Nesse cenário, a reprodução é tratada pelo corpo como um luxo que só será autorizado se todas as outras necessidades estiverem plenamente atendidas.
A hierarquia que o produtor precisa entender
Kodel explica que o corpo do animal obedece a uma escala rígida de prioridades biológicas. Primeiro vem a mantença, energia mínima para respirar e sobreviver. Em seguida, o crescimento, já que as primíparas ainda estão desenvolvendo ossos e músculos. O terceiro lugar é da lactação, prioridade hormonal máxima para garantir a sobrevivência do bezerro ao pé. A reprodução aparece apenas em quarto lugar e só ocorre se os três itens anteriores estiverem completamente supridos.
“Se houver uma deficiência, por menor que seja, em minerais ou energia, a novilha sacrificará o cio para garantir o leite do bezerro e o próprio crescimento”, alerta o especialista.
O gargalo do fósforo e a “fome mineral”
Um dos erros mais comuns que Kodel identifica no campo é a crença de que o suplemento proteico-energético, por si só, resolve a fertilidade. Na prática, muitos desses produtos são formulados com foco no ganho de peso, energia, e deixam em segundo plano a concentração mineral necessária para ativar o sistema reprodutivo.
O fósforo é o principal gargalo. Para destravar o cio das novilhas primíparas, o teor desse mineral no suplemento deve ser superior a 12 g/kg. Algumas indústrias reduzem essa concentração para baratear o produto, o que compromete diretamente a ciclicidade das fêmeas.
Além do fósforo, a deficiência de selênio, zinco e cobre também impede o retorno ao cio. O animal pode aparentar boa condição corporal, estar “bonito e gordo”, e ainda assim ter o sistema reprodutivo paralisado por falta desses microelementos.
A dose certa: como calcular a suplementação
Para garantir o “bezerro todo ano”, Kodel orienta que a suplementação seja calculada com base no peso vivo (PV) do lote. A recomendação é fornecer 0,4% do peso vivo diariamente, ou seja, 4 gramas de suplemento para cada quilo de peso do animal. Na prática, uma novilha de 400 kg precisa consumir 1,6 kg do suplemento por dia para suprir todas as suas demandas e ainda ter reserva nutricional suficiente para entrar no cio.
A diferença em relação à vaca adulta é significativa: para fêmeas já desenvolvidas, a meta de consumo cai para 0,1% a 0,2% do peso vivo, com foco em fósforo entre 7 e 9 g/kg, suficiente para manutenção e retorno ao cio sem a pressão do crescimento simultâneo.
O recado de Kodel é direto: fertilidade é equilíbrio mineral. Não adianta investir em energia se o rótulo do suplemento não entrega o fósforo necessário para a fisiologia reprodutiva. Se as novilhas estão atrasadas para emprenhar, o primeiro passo é revisar os níveis de garantia do produto que está sendo usado, antes de culpar o pasto ou o touro.
Renata Lippi | Canal Rural





