De 14% para 2,3%: como Carmen Perez derrubou a mortalidade de bezerros na Fazenda Orvalho das Flores
Pecuarista de MT transformou perdas evitáveis em lucro real e lançou curso para profissionalizar a gestão da cria no Brasil
A taxa de mortalidade de bezerros é um dos desafios mais silenciosos e onerosos da pecuária brasileira. Em muitas fazendas, esse índice ainda oscila entre 15% e 18%, consumindo capital e comprometendo a rentabilidade da fase de cria sem que o produtor perceba o tamanho do prejuízo. A pecuarista e ativista Carmen Perez, da Fazenda Orvalho das Flores, em Mato Grosso, decidiu enfrentar esse problema de frente, e os resultados provam que é possível virar esse jogo.
Ao adotar o bem-estar animal como estratégia central de negócio, Carmen reduziu a mortalidade em sua propriedade de 14% para 1,6%, com média histórica estabilizada em torno de 2,3%. A redução não é apenas uma conquista técnica, é uma decisão financeira de alto impacto. Enquanto a média de mercado amarga prejuízos de cerca de R$ 50 mil a cada 100 bezerros nascidos devido a mortes evitáveis, a Fazenda Orvalho das Flores retém esse capital no fluxo de caixa.
Comparada às chamadas fazendas “Top Rentáveis”, a propriedade de Carmen apresenta indicadores superiores: fertilidade de 86% e produção de 40 kg a mais de bezerro desmamado por vaca exposta em relação à média nacional. O método prova que o manejo racional reduz o descarte de carcaças no pasto e maximiza o aproveitamento de cada animal nascido.
Os pilares do método
Para disseminar essas práticas, Carmen lançou o curso Rebanho de Valor, focado em profissionalizar a gestão de pessoas e o trato direto com os animais. O programa se apoia em três pilares fundamentais.
O primeiro é o bem-estar humano e animal: o conceito central é que não existe cuidado com o bicho sem o cuidado com as pessoas. O treinamento sensibiliza a equipe de campo para um olhar mais detalhista e empático, capaz de identificar sinais precoces de adoecimento antes que o problema evolua.
O segundo é o protocolo rigoroso de maternidade e cura de umbigo: visitas à maternidade duas vezes ao dia e a cura técnica do umbigo representam o “básico bem feito” que salva vidas no dia zero. Ações simples, mas que exigem disciplina e constância da equipe.
O terceiro é o desmame lado a lado: técnica que mantém o contato visual entre vaca e bezerro após a separação, eliminando o estresse do processo e garantindo que o animal continue ganhando peso sem interrupções.
Pastejo em faixas na pecuária de corte
Carmen também apresentou o conceito de pastejo em faixas para gado de cria comercial, adaptando técnicas consagradas no setor leiteiro para a pecuária de corte. Com cercas móveis de fácil montagem, a fazenda atinge lotações altíssimas sem degradar o solo, promovendo a regeneração das pastagens enquanto mantém as vacas produtivas. O manejo dinâmico otimiza o aproveitamento do capim e permite um controle sanitário e nutricional muito mais próximo de cada lote de fêmeas e seus bezerros.
O recado de Carmen é claro: o sucesso na cria em 2026 exige a superação do manejo bruto. O olhar detalhista, muitas vezes associado à presença feminina na gestão, é o que identifica o bezerro doente precocemente e garante a sobrevivência do rebanho. “O manejo humanizado gera impactos que vão muito além dos resultados financeiros”, conclui a pecuarista.
Renata Lippi | Canal Rural





