Brasil pode substituir até 40% dos fertilizantes com soluções biológicas, aponta Nobel da Agricultura
Pesquisas indicam que bioinsumos podem gerar economia de até R$ 140 bilhões no agro
O Brasil já possui tecnologia suficiente para reduzir drasticamente a dependência de fertilizantes químicos, e isso pode representar uma virada histórica para o agronegócio. A afirmação é da pesquisadora Mariângela Hungria, da Embrapa, primeira mulher brasileira a conquistar o Prêmio Mundial da Alimentação, conhecido como o “Nobel da Agricultura”.
Durante participação no programa Giro do Boi, a cientista destacou que soluções biológicas já disponíveis no país podem substituir entre 40% e 50% dos fertilizantes químicos utilizados atualmente, um avanço estratégico diante da dependência brasileira de insumos importados, especialmente de regiões em instabilidade geopolítica.
Segundo ela, o uso de bioinsumos, especialmente a Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN), permite que bactérias capturem o nitrogênio diretamente da atmosfera, reduzindo ou até eliminando a necessidade de fertilizantes nitrogenados, como a ureia. Só na cultura da soja, essa tecnologia já gera uma economia estimada em cerca de R$ 140 bilhões por safra no Brasil.
Além do impacto econômico, os ganhos ambientais também são expressivos. Estudos conduzidos pela pesquisadora indicam que a adoção dessas tecnologias já evitou a emissão de aproximadamente 230 milhões de toneladas de gases de efeito estufa, consolidando o país como referência global em produção agrícola de baixa pegada de carbono.
Do grão ao pasto: avanço chega à pecuária
O avanço da biotecnologia não se limita às lavouras. Uma das principais novidades destacadas por Hungria é a expansão do uso de bioinsumos para pastagens, o que abre novas possibilidades para a pecuária brasileira, especialmente no contexto de recuperação de áreas degradadas, estimadas em cerca de 40 milhões de hectares no país.
Bactérias como Azospirillum têm sido utilizadas para estimular o crescimento radicular das plantas, aumentando a absorção de água e nutrientes. Já microrganismos como Pseudomonas fluorescens atuam na solubilização do fósforo, tornando-o disponível no solo.
Na prática, pastagens inoculadas podem apresentar até 20% mais biomassa, com forragem mais rica em proteínas e minerais, o que resulta em ganho de peso mais rápido dos animais e maior eficiência produtiva.
Saúde do solo no centro da estratégia
Para a pesquisadora, o futuro do agro passa necessariamente pela regeneração dos solos. Tecnologias como a Bioanálise de Solo (BioAS) permitem monitorar a atividade microbiana e garantir que o solo funcione como um sistema vivo, capaz de reter água, reciclar nutrientes e sustentar a produtividade no longo prazo.
A visão vai além da sustentabilidade tradicional. “Não basta ser sustentável, é preciso regenerar”, defende Hungria, reforçando a necessidade de devolver biodiversidade aos solos e garantir segurança alimentar para as próximas gerações.
Um novo caminho para a independência do agro
Em um cenário global marcado pela volatilidade no mercado de fertilizantes, o avanço dos bioinsumos posiciona o Brasil como protagonista na agricultura do futuro. Ao investir em ciência, tecnologia e parcerias público-privadas, o país não apenas reduz custos de produção, mas também fortalece sua soberania agrícola.
A mensagem é clara: o sucesso da agropecuária brasileira está cada vez mais ligado à biologia.
Renata Lippi | Canal Rural





